VIEIRA, M.. Mal-Estar na Civilização : entre o Desejo e Gozo. Afreudite - Revista Lusófona de Psicanálise Pura e Aplicada, América do Norte, 1, Set. 2009. Disponível em:
''Entremos então no texto propriamente dito. Podemos resumir sua posição da seguinte
forma: trata-se de uma avaliação da contribuição da psicanálise com relação a um ponto
específico, o mal-estar da civilização. Freud constitui um diagnóstico contundente deste
mal-estar ao mesmo tempo em que descreve os caminhos e os impasses encontrados
pela humanidade para enfrenta-lo. Em seguida ele explicará este mal-estar à luz da
psicanálise, mostrando o quanto esta pode contribuir para uma melhor compreensão de
seus fundamentos. Mas há mais, parece-me que podemos dizer que Freud articula, de
forma implícita, uma maneira de desfazer o nó deste mal-estar através da psicanálise.
Esta última posição freudiana só se tornará clara através da leitura de Lacan, que
tentarei explicitar aqui.
O que descrevi acima é uma simplificação redutora quase grosseira pois trata-se de um
texto imensamente rico onde Freud aponta para inúmeros temas. Ele constitui, por
exemplo, um esboço de teoria da relação do erotismo uretral com o fogo, de uma
explicação psicanalítica da tendência ao asseio e à higiene, de uma teoria do
comunismo, do anti-semitismo, de uma discussão sobre a sociedade americana e ainda
um esboço de teoria sociológica e pedagógica a partir da psicanálise. Basta isto para que
vocês compreendam que serei enormemente injusto com Freud tratando apenas de sua
tese principal. Espero que vocês possam ir ao texto para desfrutar do estilo e da riqueza
dos ditos freudianos.
2Quanto a esta tese principal o texto se constrói através do questionamento do senso
comum, do qual parte afim de problematizá-lo. Só então, após ter demonstrado o
impasse destes valores e posições tradicionais quanto a sociedade e seus preceitos, é que
Freud, num procedimento quase socrático, introduzirá a novidade da psicanálise. Esta
concerne sobretudo o sentimento de culpa que funda o mal-estar. Neste sentido Freud é
claramente anti-kantiano pois se colocará em oposição à moral e os preceitos do senso
comum (encarnados segundo Freud sobretudo pelos valores judaico-cristãos) e que
Kant colocava como os elementos próprios de uma ética da razão pura.
A tese forte de Freud neste sentido se resume da seguinte maneira: o mal-estar não vem
da oposição entre a civilização (e suas exigências repressoras) e a pulsão (e suas
exigências instintivas imperiosas), pois não se trata de uma oposição simples. A
renúncia às demandas pulsionais implica ela mesmo uma certa satisfação, que funda,
tanto quanto à renúncia, a sociedade.
Tentemos esclarecer esta questão. Para se entender o que significa esta tese fundamental
de Freud temos que ter em mente algumas aquisições da psicanálise, sendo necessário
um pequeno desvio.
3. TOTEM E TABU
Neste texto Freud fixa o ponto fundamental de nascimento da sociedade. Este
nascimento deve ser entendido, aqui, não num plano histórico-evolucionista, como se
tivesse realmente ocorrido na noite dos tempos, mas sim mítico-estrutural, como uma
narrativa que condensa as leis básicas da subjetivação do homem com relação ao social.
Neste texto, Freud pôs em cena uma tribo primordial e postulou que, neste contexto, um
macho dominante submetia todos seus filhos e usufruía das fêmeas com exclusividade.
Freud supõe então que, em um dado momento, em vez de um dos filhos vencer o pai em
um confronto individual e assumir seu lugar seguindo a lei da natureza, os irmãos
decidem associar-se para matá-lo. Surge assim a primeira forma de contrato,
assinalando o nascimento da primeira comunidade humana.
Ganharemos muito se considerarmos que Freud não estava buscando revolucionar a
antropologia e sim, diante de uma novidade clínica que se apresentava em sua
3experiência quotidiana, buscava delimitar e transmitir uma configuração específica.
Concentrou-se em transmitir uma certa forma mais do que delinear os conteúdos a partir
dos quais esta forma se apresentava, uma vez que estes são tão variados quanto o eram
seus pacientes. Com efeito, em vez de contar como cada um de seus pacientes se
deparava, de uma maneira particular, com a figura do pai, Freud recorre à primeira
mitologia fantástica de aparência universal em que pôde lançar mão, a da ciência
antropológica de sua época, para transmitir o que observava.
Podemos retomar este texto, a partir de Lacan, demonstrando, por exemplo, que esta
epopéia freudiana veicula, dentre muitas coisas, um impasse lógico: uma vez o pai
morto, ninguém mais pode ser Pai. Se a premissa de base rezava que «para se tornar Pai
é preciso derrotá-lo em um combate singular» e se o pai está morto, como tornar-se Pai?
Evidentemente, um dos filhos pode desfazer a aliança com os outros, por ser mais forte
ou mais vil, tornando-se eventualmente um tirano, mas ele sempre estará em outra
posição que não a do Pai primevo. Num outro extremo, um dos filhos pode ainda tornarse um líder espiritual, amado por todos, mas igualmente carregará sempre consigo a
sensação de impostura e de culpa fundamental que é inextinguível. Uma vez o pai
morto, é impossível o acesso pleno ao outro sexo: a Mãe será proibida para sempre e
que um filho apenas se tornará homem, a partir de uma identificação com o Pai defunto,
o que, de certa forma, também mortifica o filho pois ele nunca será como o Pai teria
sido. Como conseqüência desta mortificação, ele só poderá usufruir de uma mulher
envolvido em uma espécie de tonalidade transgressiva, atribuída ao ato sexual, pois
associado à posse da Mãe. Desta forma, o sexo e o amor não serão nunca plenos, mas
sempre marcados por uma perda e culpa fundamentais. Não se trata de afirmar que,
devido a um acidente histórico da evolução da espécie, todo homem é culpado, mas sim
que todo homem é culpado e esta é a maneira que Freud encontrou para transmitir a
articulação lógica desta condição humana.
Desta forma percebemos que o importante para Freud é indicar que o assassinato do pai
da horda primitiva funda ao mesmo tempo a Lei e a proibição. A partir deste ponto
temos a constituição por Freud de um mito que será retomado por Lacan em seu sétimo
seminário a partir do conceito de Das Ding, a Coisa. Trata-se do Outro em sua
alteridade radical, antes que venha a ser "lido" pelos sentidos da linguagem e da cultura.
Um outro "real", que é proibido enquanto tal ao ser falante, pois uma vez na linguagem
4o sujeito só poderá atingi-lo por intermédio desta mesma linguagem, filtrado por esta.
Assimilando a Coisa à Mãe, como Outro primordial, vemos que Lacan indica que o
gozo da Coisa como tal é impossível para aquele que fala.
Das Ding é tão inacessível quanto o pai da horda, pois estes já estão mortos no
momento em que se vem a ser na cultura. Este mito permite-nos apreender de modo
exemplar a incidência da leitura lacaniana. O ponto de surgimento da civilização será
assimilado à instauração da ordem simbólica. Passa-se assim do pai da horda (que pode
ser aproximado da Coisa materna) ao pai simbólico (representante da Lei, ele também
submetido a ela).
Mas convém lembrar que este mesmo mito indica que o pecado e a Lei andam juntos. A
Lei que impossibilita (ocupar o lugar do pai da horda, na versão freudiana, ou possuir a
mãe-Coisa na versão lacaniana) é a reedição do pecado (assassinato ou incesto
fundamentais). Este movimento duplo, já assinalado por São Paulo parece-nos
fundamental para uma leitura consistente de Freud, estando no fundamento de diversas
oposições essenciais tais como a oposição entre pulsão de vida e pulsão de morte.
Encontramos aí a articulação de dois princípios fundamentais (união e dispersão) que
não existem separadamente e que guiam a constituição do sujeito e da civilização. ''
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