(ou a hipermodernidade sertaneja)
Por Marcus André Vieira
Este texto constitui uma passagem do curso ministrado na pós-graduação da PUC-Rio no primeiro semestre de 2004 sob o título: Ego e lei (transcrita e editada por Juliana Merces, a quem agradeço especialmente). Ele integra várias passagens de artigos já publicados e conferências já ministradas. Espero que o leitor, para estabelecer o valor da leitura, possa contrapor a falta do inédito ao interesse propedêutico do conjunto.
1. Do Édipo à estrutura
2. Tabu totem
3. O bastardo
4. O sertão
1.
Lacan liberta o pai freudiano da situação concreta, familiar, em que aparentemente estava localizado. Invertem-se os dados: em vez de “O pai é a origem”, teremos “O que for, para um sujeito, a origem será o pai”. Isto tanto responde aos que perguntariam “mas e quando não houver pai?”, quanto deixa claro o quanto a função e a pessoa devem ser distinguidas em uma análise.
No tratamento analítico nos deslocamos em uma matriz que Lacan denomina estrutura. Lugares e relações definirão as essências e não o inverso. O ganho permitido por esta referência estrutural permite que se aja onde falham as coordenadas realistas, quando, por exemplo, assistimos uma anorética, vendo-se no lugar da obesa, insistir em perder peso até o fim. O estruturalismo permite, assim, que se radicalize a aposta freudiana de uma revolução que refaz o real sem dar-lhe um sentido último e profundo, sem fazer dele uma verdade oculta. Lacan assim formaliza o mito edípico como uma estrutura que define lugares e relações que, ao serem ocupados pela criança, constituem sua identidade sexual.
Uma estrutura análoga, ainda que pelo avesso, à matriz individual delineada pelo triângulo edípico, será transposta por Freud para o plano social em Totem e Tabu. O texto põe em cena uma tribo primordial em que um macho dominante submetia todos seus filhos e usufruía das fêmeas com exclusividade. Em vez de um dos filhos vencer o pai em um confronto individual e assumir seu lugar seguindo a lei da natureza, os irmãos decidem associar-se para matá-lo. Surge assim um contrato inaugural, assinalando o nascimento da primeira comunidade humana. Aqui, em vez da relação mãe-bêbê é a comunidade dos irmãos o corpo social que figura a caverna. De maneira análoga, no entanto, o assassinato do pai escava no centro da coletividade recém-surgida dos irmãos um vazio essencial, pois ninguém mais poderá ser pai. Pai morto, ponto de fuga posto. Sua presença garante a estabilidade do mundo e sustenta a crença em um outro plano de existência. O Pai das Idéias, segundo Freud, está no imaterial infinito. O primeiro grande segredo freudiano se enuncia assim: o túmulo de Abraão está vazio.
Retomando-se este texto a partir de Lacan em suas coordenadas estruturais, destaca-se também o impasse lógico do mito freudiano. Todos os filhos buscarão o lugar paterno e seu gozo aparentemente superior, mas nunca o encontrarão. Uma vez o pai morto ninguém mais pode ser Pai, pois se a premissa de base rezava que «para se tornar Pai é preciso derrotá-lo em um combate singular» e se o pai está morto, como tornar-se Pai? Evidentemente, um dos filhos pode desfazer a aliança com os outros, por ser mais forte ou mais vil, tornando-se eventualmente um tirano, mas ele sempre estará em outra posição que não a do Pai primevo. Num outro extremo, um dos filhos pode ainda tornar-se um líder espiritual, amado por todos, mas igualmente carregará sempre consigo a sensação de impostura e de culpa fundamental que é inextinguível.
A antropologia da época, ainda vacilante, era incapaz de refutar as afirmações de Totem e Tabu, mas o tempo se encarregou de mostrar que todos ou quase todos seus pressupostos foram postos em xeque pelas descobertas da ciência. Ganharemos muito se considerarmos, a partir da leitura de Lacan, que Freud não estava buscando revolucionar a antropologia e sim, diante de uma novidade clínica que se apresentava em sua experiência quotidiana, buscava delimitar e transmitir uma estrutura.
Uma vez o pai morto é impossível o acesso pleno ao outro sexo, a Mãe será proibida para sempre. Um filho apenas se tornará homem a partir de uma identificação com o Pai defunto, o que, de certa forma, também o mortifica, pois ele nunca será como o Pai teria sido. Como conseqüência desta mortificação, ele só poderá usufruir de uma mulher envolvido em uma espécie de tonalidade transgressiva, atribuída ao ato sexual (associado à posse da Mãe). O sexo e o amor, nunca plenos, serão sempre marcados por uma perda e culpa fundamentais. Não se trata de afirmar que, devido a um acidente histórico da evolução da espécie, todo homem é culpado, mas sim que esta é a maneira encontrada por Freud para transmitir a articulação lógica da impossibilidade de um gozo sem culpa, da condição humana de um sentimento de culpa estrutural.
2.
Até que ponto seria, porém, universal a estrutura do Édipo? Este foi um argumento endereçado a Freud desde os primórdios da psicanálise. Perdeu com Lacan grande parte de seu fôlego, já que a partir da referência estrutural pode-se prescindir das cores e formas locais. Hoje, porém, ganha força por outras razões: em nosso mundo globalizado a culpa está claramente em desuso, assim como a força de um Pai como figura transcendente.
Com muito pouca segurança ou originalidade o analista poderia intervir neste debate. Podemos, porém, registrar, já no interior da teoria psicanalítica, algo equivalente à falência da autoridade tão propagada em nossos dias, exatamente quando Freud institui o Pai como necessariamente morto. Este golpe sofrido pelo pai é incrementado de modo radical por Lacan, ao esvaziá-lo de suas roupagens e reduzi-lo a um ponto cego. O Nome do pai, como vimos, permite que a psicanálise se adapte aos mais variados contextos, tempo e culturas, ganhando uma universalidade insuspeitada por Freud. Ao mesmo tempo é exatamente este movimento que desvela com nitidez um segundo grande segredo de Freud.
Todo pai governa em nome de um fantasma, do verdadeiro Pai original. É um representante de um poder irrepresentável. Legisla por procuração. Exatamente por isso sustenta a idéia de que em algum outro lugar reside a origem da verdadeira autoridade, um Ideal, sempre além e sempre maior do que se possa imaginar. Cada pai, porém, é também alguém que vive, ama e trabalha. Ao fazer reluzir o Ideal, ofusca tudo aquilo que, como alguém de carne e osso, apresenta em discordância com ele. Tudo o que em um pai não corresponde ao Pai, tudo o que for resto real do Ideal, fica esquecido. É este resto, e não o ideal, que será o protagonista de uma análise.
Para entendê-lo experimente-se um jogo conhecido como “retrato falado”. Cada um dos participantes endereça uma pergunta àquele que terá escolhido previamente um personagem sem comunicá-lo aos outros. Ele responde apenas “sim” ou “não”. Ao cabo de algumas rodadas, acumulam-se os traços que vão desenhando o perfil do personagem até que alguém o adivinhe.
É fácil estabelecer a analogia. O personagem oculto é o pai ideal e a confiança depositada no jogador que escolheu o personagem, o Nome do Pai. Não podemos esquecer disto, pois é exatamente por nunca supormos que ele enlouqueceu ou que está querendo nos pregar uma peça, que o jogo funciona. Esta fé cega dá suporte a todo o percurso em direção à vitória no reconfortante encontro com a figura oculta.
Para realçarmos esta função façamos com que o personagem oculto não exista. É preciso apenas introduzir uma pequena modificação. Suponhamos que aconteça exatamente o que ninguém imagina. Digamos que não haja personagem escolhido, que o jogador incumbido de pensá-lo decida, para divertir-se com os demais, responder aleatoriamente “sim” ou “não”. Verificaremos que a crença na existência de alguém no fundo da Caverna faz com que o jogo surpreendentemente continue a funcionar. O jogador que havia resolvido pregar uma peça nos amigos terá a estranha experiência de ver um personagem literalmente surgir diante de seus olhos. Suas respostas vão conduzindo os jogadores a delimitar progressivamente um retrato e a encontrar, por eliminação, alguém. Uma vez o retrato estabelecido, será, inclusive, difícil convencê-los de que não havia personagem algum.
O Nome do pai, como ponto fixo de orientação nos leva, assim, ao fundo da Caverna mesmo que não haja um pai para nos conduzir. Basta apenas que haja um número de rodadas suficientemente grande e que não se perca a essencial fé no jogo. Caso a crença no Pai esteja firme em seu posto, no céu da cultura, alguma coisa sempre se delineará, nem que sejam as palavras de ordem que ele nos teria deixado.
Como as respostas podem ser totalmente desprovidas de lógica, até contraditórias, a mágica funcionará igualmente produzindo estranhos seres. Um exemplo radical: caso, logo de saída, a pergunta seja “ele é branco?” e a resposta positiva e que, em seguida, pergunte-se “ele é preto?” e a resposta também seja “sim”, pode-se imaginar que se chegue com indubitável certeza à resposta: Michael Jackson!
É só imaginar agora que os jogadores sejam todos seguidores de Martin Luther King e de seu sonho de integração para verificar como, a partir do ideal de convivência pacífica de raças, pode-se produzir não apenas belos mestiços, mas também estranhos híbridos. É o que destaca a anedota do menino que derrama tinta branca sobre si para ficar branco. Ao vê-lo desse modo seu pai lhe dá uma surra. O mesmo faz sua mãe. Ele, então, reflete e se diz: “Agora entendo! Não faz cinco minutos que sou branco e já tenho raiva de dois pretos.” No sonho de Martin Luther King - sua Caverna ideal - convivem brancos (mesmo os radicais da Ku Klux Khan), negros, oprimidos ou não, e belos mestiços. Não cabem, porém, meninos como esse.
De modo análogo, a articulação entre o pai da realidade, pai ideal e o Nome do Pai, ao constituir, para cada um, as regras do necessário, proscreve uma série de combinações bastardas. Ao longo de uma vida, cada ocorrência inadmissivelmente híbrida será deslocada para uma espécie de terra de ninguém, os confins do recalcado. Estas figuras, sem lugar na versão oficial de uma existência, permanecem impregnadas de um valor especial de verdade pois são, para cada um, links para outras possibilidades de ser que não ganharam lugar. Terão sempre um caráter obsceno com relação ao ideal paterno em questão, tal como o menino da tinta que, oprimido, em vez de lutar ou de resignar-se, troca sua alma pelo benefício de ser, mesmo que por alguns minutos ou anos, bastardamente branco.
3.
A figura do bastardo é o retrato falado de um Totem sem Tabu. É um modo de delimitar este ser do avesso, costura de restos sem-sentido, esparsos disparatados sem integração, sem unidade, sem lugar no Outro. Estas versões piratas de nós não deixam de nos orientar como bússola do desejo nos interstícios das coordenadas oficiais, por serem exatamente elas que nos fazem únicos, distintos do que em nós idealizou nosso Outro.
O jogo do retrato falado modificado nos dá uma pequena idéia da operação analítica. Ela não apenas revela no Pai ideal o Nome do pai, puro ponto cego. Caso fosse apenas isto, não passaria de um lento, doloroso e progressivo exercício de desidealização. Ela faz mais que isso ao apontar para o preço pago pela crença no ideal: o descarte dos restos da operação paterna. Em vez de erigir um belo personagem tecido com as insígnias do ideal, uma imagem de si “analisada”, livre de suas determinações, dirige-se a um estranho ser, colagem de restos que ficaram à margem de uma história.
Este é o objeto da psicanálise, segundo Lacan. Sem forma ou figura fixa, ganha o nome de uma letra vazia, objeto a, “monte de restos”, petit tas. É inteiramente montagem de ocasião, bricolagem daquilo que ocupou em algum momento o lugar do impossível, da inexistência do Pai. Para cada um, contudo, é único, singular e absolutamente necessário, pois insufla a vida artesanal nos contornos industriais de uma existência. Dessa forma, a experiência do inconsciente nos desvela como seres determinados e, ao mesmo tempo, desenha em nosso horizonte a liberdade do encontro com a absoluta contingência destas mesmas determinações.
A solidez do universal edípico é refém de um ponto vazio. O pai, morto, leva consigo o segredo de seu gozo que será subtraído de cada um de seus filhos (o que Freud assinala com a culpa). Este gozo só poderá ser recuperado em experiências marginais. Nesta periferia brilha o bastardo, prova viva de que o pai não era assim tão santo, presença entre nós de um gozo que, supostamente perdido, garante ao Pai seu papel de Ideal regulador.
O bastardo sempre existiu, só que mantido nesse lugar marginal. Ele será, como objeto a, retirado de baixo do tapete, identificado como a verdadeira causa do desejo, centro nevrálgico do gozo. A subversão propriamente analítica reside no fato de que o bastardo tome o lugar do rei e dite a ação, em desacordo com a estrutura da caverna edípica.
O aparecimento na cultura do objeto da psicanálise assinala, assim, o eclipse do Pai, pois onde houver este objeto inominável, há falência do Nome. Nela, porém, o bufão chega ao trono de modo velado pelo aspecto, enganoso, de investigação e de desvelamento de uma verdade oculta de que a invenção freudiana se reveste. O que aconteceria, porém, se o menino pintado de branco, deserdado por seu pai e exilado nas margens da experiência, não apenas se revelasse após um árduo percurso analítico, mas se exibisse em todos os televisores? Michael Jackson é, aqui, exemplar, dando tons proféticos à afirmação de Lacan, de 1970, da ascensão ao zênite social do objeto a.
Esta subida ao trono do objeto significa necessariamente o fim do regime edípico? O que acontece com nosso gozo? Para um esboço de resposta será preciso delimitar a configuração do Outro contemporâneo.
Neste sentido, em seu Seminário da orientação lacaniana de 96-97, Jacques-Alain Miller explicita, a partir de Lacan, uma tese maior sobre a contemporaneidade: estamos em tempos em que a exceção deixa de funcionar como padrão geral levando a um “Outro que não existe”.
Estaríamos em tempos da dissolução do Outro em uma espécie de anomia geral? Fim da Caverna? Esta afirmação apenas aparentemente indica o fim do Outro. Na verdade, o seminário trata menos de seu fim e mais da materialização contemporânea de um outro Outro, uma estranha alteridade, que seria a tônica atual das relações do sujeito com o mundo.
O Outro que não existe é o parceiro maior do homem contemporâneo. Descrito por J. A. Miller como nãotodo, ele é uma forma social distinta do coletivo dos irmãos, em que a limitação pela exceção paterna é regra. Não se organiza em torno de um furo central. Por faltar-lhe a falta é essencialmente sem forma. Para que possamos imaginá-lo basta tomar o que chamamos habitualmente de “mercado” como uma bem acabada forma de vida "nãotodista". É caprichoso, sem fronteiras precisas. Nenhum objeto, porém, furta-se a ele. Os índios? Já têm celular. Os monges tibetanos? Lançam best-sellers.
As mães o conhecem bem. Elas, mesmo sabendo muito, submetiam-se, até há pouco tempo, a um Outro hierarquizado e transmitiam a eficácia da falta ao consentir com um saber maior, fora de alcance. Hoje sabem pouco, mas têm como parceiro prevalente um Outro que dispõe virtualmente de todas as respostas em pequenos saberes, à distância de um clique. À primeira dificuldade com a criança convoca-se um grande número de especialistas, chega-se rapidamente a uma objetivação diagnóstica hiperativa e a um comprimido de ritalina.
Desta forma, com relação a uma forma coletiva do tipo Todo, há o Outro a que nada se excetua, que é não limitado – e por isso mesmo não constituído como corpo. Ele não é mítico e sim paradoxal. É o “Outro que (está aí mas) não existe”, é o Outro nãotodo. É o Outro da rede, virtual. É o parceiro com quem se lida quando se navega na internet. Afinal, quando se entra em uma sala de chat, como ter certeza que cada nickname corresponda a uma só pessoa? Não seria possível imaginar que vários ali poderiam ser o mesmo sujeito, ou ainda que um deles talvez seja vários, um grupo de amigos teclando juntos para se divertir?
O Outro desíntegro não é um Outro incompleto, um Todo a quem, humildemente barrado, faltaria algo. Ao contrário, é um todo sem limites. Não tem, no entanto, corpo e está, assim, longe de ser todo-poderoso. O Outro nãotodo é disforme, onipresente, sem, contudo, real poder de fogo. Corrói e gera violência mas nunca como a de um exército organizado. Não se pode travar guerra com um Outro nãotodo. Ele é indestrutível, mas sem músculos.
4.
Podemos melhor situar a virada contemporânea contrapondo os Sertões de Euclides da Cunha ao Sertão de Guimarães Rosa. Nos Sertões o homem é produto da terra. Graças a sua disciplina e cálculo torna-a, qual um Crusoé tropical, sua aliada. Do sertão nasce, no entanto, quase como uma excrescência, a contrapartida da subtração de gozo efetivada sobre o colonizador, o sertanejo. Excetuando-se à população do Império, é tolerado desde que minoria periférica e jamais como hoste, reunião de crentes, fanáticos, Canudos. Antonio Conselheiro espelha o que de pior pode produzir o sertão sertanejo. Nas palavras de Euclides da Cunha: “A sua biografia compendia e resume a existência da sociedade sertaneja (...) sua constituição mórbida, levando-o a interpretar caprichosamente as condições objetivas e alterando-lhe as relações com o mundo exterior, traduz-se fundamentalmente como uma regressão ao estádio mental dos tipos ancestrais da espécie (...) essa regressão ideativa que patenteou (...) não o isolou (...) no meio que agiu. Ao contrário, este fortaleceu-o.” (cap. “Um gnóstico bronco”).
No Sertão, virtual, de Guimarães Rosa, estamos em outro registro. Evapora-se o sertanejo como inimigo e perturbam-se as fronteiras. "Sertão, - se diz -, o senhor querendo procurar nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera o sertão vem." Sem inimigo fixo, de certa forma, estamos sempre em guerra, pois o Sertão tanto pode ser inimigo quanto parceiro. “O sertão é confusão em grande demasiado sossego", "Sertão não é maligno nem carinhoso, mano oh mano!: - ...ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo." O que fazer? "Rebulir com o sertão como dono? Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor. Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro o sertão vai virando tigre embaixo da sela." (ROSA. G. Grande Sertão Veredas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1956, pp. 289, 343, 394 e 284).
Atente-se para que não se conceba “Todo” e “nãotodo” de maneira exageradamente independente e estanque. A tese de que esse Outro desintegral, apenas meio existente, passa a dar as cartas na civilização, não elimina o fato de que o específico da posição freudiana é que o nãotodo não existe sem o Todo. Não há desíntegro sem o íntegro. O nãotodo é impensável sem atrelamento a algum tipo de corporeidade. Sem um mínimo de forma sobre a qual assentar-se ele seria pura dispersão real, caos. É o que deixa claro J. A. Miller quando retoma este paradigma alguns anos mais tarde, de maneira ainda mais precisa, e afirma que nossos dias são marcados pela “prevalência da estrutura do nãotodo sobre a estrutura do Todo”.
Não há, então para nós, fim do Todo, tal como para um Fukuyama há o fim da história. O Pai até um certo momento ocupou, com seu regime todista de articulação entre saber e gozo, o centro da cena, e o nãotodo a periferia. A passagem deste último para uma posição preponderante não modifica o fato de que ele é inseparável de um baque sofrido pelo Pai na modernidade e inscrito por Freud em seu mito como a função do pai morto. A teoria lacaniana da contemporaneidade não supõe uma ruptura com a modernidade e sim uma mudança de registro fundada na exacerbação de algo que já lá estava e em uma nova aliança entre seus principais personagens. Por essa razão, somos levados a recusar o termo pós-modernidade. A contemporaneidade lacaniana é assim uma altamodernidade, ou como prefere Miller aproximando-se de Lypovetsky, uma hipermodernidade.
O nãotodo não é uma formulação sociológica ou antropologia. É um modo de gozo. A questão, na generalização do gozo desintegral é sobre como localizá-lo. O gozo todista é localizado o nãotodo é disperso. Como localizar este estranho real-tigre de nosso Sertão-Matrix se Diadorim virou popstar e o sertanejo “portador de necessidade especial”?
Uma análise é, assim, movida pelo objeto tendo como cenário todo o tempo o teatro do Outro. A saída é individual e passa por um bem-dizer, um dizer de “encher sua história”. A verdadeira luta é a de cada um para se achar neste sertão, para construir sua vereda e dizer o que não há de como. Dessa forma, o real na psicanálise é deserto, tal como o de Baudrillard, mas um deserto habitado. Freud encontra ali o objeto a, é ele que poderá ser delineado em uma análise. O gozo pode ser sem corpo, mas não é sem objeto. Uma análise o materializa, nada virtual, mas antes sertanejo, permitindo escorar nossas certezas de modo original, algo ao modo de um Tom Zé quando canta:
Eu tô te explicando pra te confundir, Eu tô te confundindo pra te esclarecer,
Tô dividindo pra poder sobrar, Desperdiçando pra poder faltar
Tô iluminado pra poder cegar, Tô ficando cego pra poder guiar...
http://www.ebprio.com.br/eventos_arquivos_pra_que_serve_um%20_pai-boletim3_b.html
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